A Reforma tributária muda a conta de quem presta serviço de tecnologia?
Entenda como o novo sistema de créditos do IBS e da CBS afeta o setor de tecnologia, quem ganha, quem sente mais o impacto, e o que ainda está em definição.
A reforma tributária existe pra resolver um problema real: hoje o Brasil tem cinco tributos sobre consumo (PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS), com regra própria e efeito cascata de "imposto sobre imposto" em boa parte da cadeia produtiva. Unificar isso em dois tributos (IBS e CBS), com direito a crédito integral, resolve essa distorção pra muita gente. Mas o efeito não é uniforme entre setores, e vale entender por quê. Pro setor de tecnologia, especialmente quem presta serviço via PJ, com pouco insumo físico e muita mão de obra qualificada, a lógica de créditos pode significar uma conta diferente da esperada.
Como funciona o crédito no IBS e na CBS
O IBS e a CBS funcionam na lógica de não-cumulatividade: a empresa paga o imposto sobre o que vende, mas desconta o que já pagou de imposto nos insumos que comprou. Na teoria, isso é uma vantagem, elimina o efeito "imposto sobre imposto" que existe hoje.
Só que essa vantagem depende de ter insumos tributados pra gerar crédito. E o principal custo de uma empresa de tecnologia, mão de obra qualificada, não é tributado pelo IVA. Resultado: a empresa recolhe o imposto cheio sobre toda a receita, sem ter praticamente nada pra abater do lado do crédito. É a mesma lógica que já preocupa o setor de serviços em geral, mas pesa ainda mais em tecnologia, onde a folha de pagamento costuma ser a fatia mais pesada do custo total.
Some a isso outro ponto real: o ISS de hoje, pra grande parte dos serviços de tecnologia, roda numa faixa baixa (2% a 5%, dependendo do município). A unificação num IVA Dual com alíquota bem mais alta cria o que analistas do setor já chamam de "choque de custos", mesmo com o benefício teórico do crédito.
O que já está definido e o que ainda não está: a questão da alíquota
Você provavelmente já viu por aí a afirmação de que a alíquota do IBS+CBS vai ser de 27,91%. Isso é impreciso. Esse número é uma premissa orçamentária que o CGIBS (Comitê Gestor do IBS) usou só pra projetar a própria arrecadação de 2027, o comitê deixou explícito que esse percentual não representa a alíquota que será efetivamente cobrada das empresas.
A realidade, até o momento: em 2026, a CBS é cobrada a 0,9% e o IBS a 0,1%, ano de teste, sem recolhimento efetivo pra quem cumpre as obrigações acessórias. A alíquota real da CBS pra 2027 só será fixada pelo Senado Federal, até 15 de dezembro de 2026, depois do TCU homologar a metodologia de cálculo até 30 de outubro. Existe uma estimativa privada (não-oficial) da consultoria ROIT, apontando algo próximo de 9,43% só pra CBS, mas é estimativa de mercado, não número do governo.
Na prática: ninguém sabe ainda o número exato que vai pesar no seu bolso. O que já dá pra afirmar com segurança é a direção do impacto, não o percentual.
O impacto muda conforme o setor: quem ganha, quem sente mais
A reforma não é ruim pra todo mundo, e essa parte importa tanto quanto a anterior. A indústria de transformação é apontada por analistas como a grande beneficiada, hoje ela sofre bastante com a cumulatividade de impostos ao longo de uma cadeia produtiva longa (matéria-prima, insumo, industrialização, distribuição). O sistema de crédito do IBS/CBS resolve exatamente esse problema pra quem tem cadeia de insumos tributados, o oposto estrutural do setor de serviços.
Consumidor final também tende a ganhar em transparência: hoje é difícil saber quanto de imposto está embutido no preço de um produto ou serviço, porque cada tributo tem regra própria e efeito cascata diferente. Com IBS e CBS cobrados por fora, o valor do imposto aparece separado do preço, parecido com o que já acontece em países que usam IVA. E setores com cadeia de insumo tributável em geral (não só indústria) tendem a sentir menos impacto, ou até alívio, porque conseguem aproveitar crédito de forma mais ampla do que hoje.
Ou seja: o mesmo mecanismo que pesa mais pro setor de tecnologia (crédito sobre insumo, não sobre mão de obra) é o que resolve um problema real de décadas pra quem tem cadeia produtiva longa. Não é a reforma "contra" um setor específico, é uma mudança estrutural que redistribui o peso da tributação de um jeito que favorece uns e desafia outros, dependendo de como cada negócio é organizado.
Incentivos regionais: Lei do Bem e Lei da Informática em transição
Outro ponto que preocupa empresas de tecnologia maiores: o fim de regimes especiais e incentivos locais que hoje pesam na decisão de onde instalar uma operação. Estados que hoje oferecem isenção ou alíquota reduzida pra atrair empresa de tecnologia perdem essa vantagem competitiva, o critério de instalação passa a ser talento e logística, não benefício fiscal. Programas ligados à Lei do Bem e à Lei da Informática também estão sob risco de redução ou reformulação, sem ainda estar claro como serão integrados ao novo modelo.
O que fazer enquanto a alíquota não é definida
Pra quem é PJ de tecnologia optante do Simples Nacional, a decisão mais concreta e com prazo real já batendo à porta é a janela de setembro de 2026, decidir se recolhe IBS/CBS dentro ou fora da guia única do Simples. Essa mecânica tem regra e prazo próprios, e vale a pena entender em detalhe antes de decidir. Veja o guia completo sobre Simples Nacional na Reforma Tributária.
Fora do Simples, Lucro Presumido ou Lucro Real, o momento ainda é de acompanhar, não de agir: sem alíquota definida, qualquer simulação de impacto é só estimativa. O que faz sentido agora é mapear a estrutura de custo da própria operação (quanto é mão de obra, quanto é insumo tributável) pra já ter a conta pronta assim que o Senado publicar o número real.
Perguntas frequentes sobre reforma tributária e setor de tecnologia
Por que a reforma tributária afeta o setor de tecnologia de forma diferente de outros setores?
Porque o principal custo do setor é mão de obra, que não gera crédito no sistema de IBS/CBS. As empresas terão débito cheio sobre a receita e pouco crédito para compensar, diferente de setores com cadeia de insumos tributados.
Qual é a alíquota do IBS e da CBS que vai valer em 2027?
Ainda não foi definida. O número de 27,91% citado com frequência é só uma premissa orçamentária do CGIBS para 2027, não a alíquota real. O Senado Federal deve fixar a alíquota de referência da CBS até 15 de dezembro de 2026.
Empresas de tecnologia no Simples Nacional também são afetadas?
Sim, mas de forma indireta. A decisão de setembro de 2026 (recolher IBS/CBS dentro ou fora do Simples) tem prazos e mecânica próprios, tratados em detalhe em outro artigo do blog.
Quem tende a ganhar mais com a reforma tributária?
A indústria de transformação é apontada como a grande beneficiada, porque hoje sofre mais com a cumulatividade de tributos ao longo da cadeia produtiva, algo que o sistema de créditos do IBS/CBS resolve diretamente.
Sem alíquota definida, o que dá pra fazer agora é entender o mecanismo e mapear a própria estrutura de custo, não adiantar simulação em cima de número que ainda pode mudar.
A Adaflow acompanha o avanço da reforma tributária e ajuda profissionais PJ de tecnologia a entender o impacto real na própria operação, conforme os números oficiais forem publicados.
